Rupturas, Resistências e Desconfiança: Lidando com a Primeira Sessão de Pacientes Forçados a Fazer Terapia
A clínica diante da demanda que não é do sujeito
Quando o Outro É Quem Quer a Terapia
Há encontros clínicos em que o sujeito comparece não porque quer, mas porque foi convocado. Seja por um pai preocupado, um cônjuge aflito, um empregador exigente ou uma instituição judicial, o paciente chega empurrado por um desejo que não é o seu. Nestes casos, a primeira sessão é marcada por um paradoxo: está-se diante de um sujeito que comparece fisicamente ao setting, mas cuja presença psíquica é frequentemente ausente, fragmentada ou em oposição à cena.
Para o analista, esse tipo de situação exige escuta altamente refinada e sustentação ética. O desafio é criar, a partir de uma presença imposta, um espaço onde, eventualmente, a palavra possa emergir como expressão própria — e não apenas como resposta ao apelo do Outro.
A Primeira Sessão como Campo Transferencial de Resistência
A entrada na análise nunca é neutra. Mas, no caso de pacientes que não escolheram estar ali, a cena inicial pode ser carregada de resistência manifesta, desconfiança radical e silêncios hostis. A função do analista, nesse momento, não é arrancar fala, mas sustentar um campo possível para que o sujeito se aproxime — ainda que minimamente — de sua própria posição.
Alguns elementos comuns dessa cena inicial:
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Silêncio defensivo ou desafiador: não se trata do silêncio angustiado, mas de uma recusa ativa em oferecer material.
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Falas que se referem ao Outro que impôs o tratamento: “Vim porque minha mulher pediu”, “Estou aqui porque o juiz mandou”.
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Respostas curtas, técnicas ou burocráticas: o sujeito tenta “cumprir uma tarefa”, não se implicar subjetivamente.
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Testes transferenciais: desvalorização do processo, desqualificação do analista, pedidos por soluções imediatas ou por uma escuta “de especialista”.
Esse cenário é fértil em atos transferenciais que muitas vezes encenam a própria história relacional do sujeito: um Outro que invade, que nomeia por ele, que exige uma resposta sem lhe dar tempo de pensar.
Quando o Desejo Ainda Não É do Sujeito
A psicanálise opera, por excelência, a partir da transferência e da demanda. Mas quando não há demanda subjetiva — apenas um comando externo — o trabalho clínico se aproxima dos contornos do impossível. A função do analista, nesse ponto, não é converter o paciente ao desejo de análise, mas oferecer um espaço onde, se for possível, esse desejo possa germinar.
O que sustentar, então, nessa primeira sessão?
A escuta sem expectativa: o analista deve esvaziar-se da vontade de convencer, explicar ou justificar a análise.
A aposta na temporalidade do sujeito: pode ser que este primeiro encontro seja apenas uma semente.
A construção de uma presença não intrusiva: o analista se oferece como terceiro que não se alinha nem ao suposto “culpado” (o paciente), nem ao suposto “acusador” (quem o enviou).
Silêncios, Conflitos e a Cena da Imposição
Quando o paciente cala, debocha ou se fecha, frequentemente está encenando uma relação anterior com o saber, com a autoridade ou com o cuidado. O analista, nesse momento, não deve responder com simetria (tentando “conquistar” o paciente), mas com sustentação clínica.
Possíveis funções do silêncio nesse contexto:
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Silêncio como recusa à imposição: um ato subjetivo diante de uma ordem externa.
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Silêncio como espera: o sujeito testa até onde o analista tolera a ausência de conteúdo.
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Silêncio como apelo a um não-saber do analista: “Você está disposto a me escutar mesmo quando eu não colaboro?”
Dicas Clínicas para a Primeira Sessão com Pacientes Encaminhados
Escute o discurso do Outro, mas não se alie a ele
O paciente pode trazer o discurso do pai, da esposa ou do juiz. O analista escuta, mas não reforça esse discurso.
Evite a armadilha da pedagogia ou da justificativa técnica
Explicar demais o que é a análise pode ser uma forma de tentar convencer — o que alimenta a resistência.
Observe os efeitos corporais, afetivos e contratransferenciais
Sessões de aparente “impasse” podem ser ricas em material inconsciente, se escutadas com o corpo inteiro.
Sustente o lugar de enigma, não de mestre
O analista não é aquele que “sabe o que fazer com o paciente rebelde”, mas aquele que sustenta a opacidade do desejo.
Nomeie a cena, quando oportuno
Uma intervenção como “Percebo que estar aqui hoje não foi uma escolha sua” pode funcionar como espelho subjetivante.
Registros Técnicos Relevantes
Mesmo que a sessão pareça “vazia”, deve ser registrada com rigor clínico. Anote:
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A forma como o paciente chegou (postura corporal, expressões, modos de falar).
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O conteúdo do que foi dito — mesmo que mínimo — e suas implicações transferenciais.
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O tipo de silêncio presente (tenso, desafiador, angustiado, desinteressado).
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Suas próprias reações internas (contratransferência): frustração, compaixão, irritação, tédio.
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Mudanças sutis durante a sessão (momentos de contato, descongelamentos, hesitações).
Essas anotações ajudam a construir o mapa clínico de um caso que, à primeira vista, parece resistente demais para evoluir.
Referências Clínicas Fundamentais
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FÉDIDA, Pierre – O corpo do enigma
Uma das leituras mais importantes para compreender os efeitos do silêncio e da presença psíquica no setting.
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GREEN, André – O discurso vivo
Conceitua os modos de presença e ausência do sujeito na linguagem — crucial para compreender pacientes convocados.
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FERENCZI, Sándor – Diários Clínicos
Mostra como lidar com pacientes que apresentam defesas massivas diante da escuta analítica.
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WINNICOTT, D. W. – A natureza humana
Trabalha a ideia de falso self, que frequentemente aparece em pacientes que “aceitam” a terapia sem desejo real.
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NASIO, Juan-David – A dor de existir
Reflete sobre a resistência e os modos como o sujeito defende-se do desejo, inclusive em contextos analíticos.
Livros
A Técnica Psicanalítica – Rudolf Loewenstein
Sinopse: Um clássico da psicanálise que aborda as dificuldades técnicas do analista diante de diversas situações clínicas. Loewenstein dedica especial atenção às resistências, à transferência negativa e aos momentos em que a fala do paciente é truncada, defensiva ou ausente. Excelente para refletir sobre a postura do analista em sessões onde o desejo do paciente não está claro.
A Clínica das Situações-Limite – Claude Smadja
Sinopse: Um estudo profundo sobre pacientes que se situam nas fronteiras entre neurose, psicose e perversão — muitas vezes os mesmos que chegam à análise por imposição externa. Smadja explora a complexidade do vínculo transferencial nesses casos e o desafio de sustentar o setting com sujeitos que resistem ao enquadre analítico.
O Lugar do Analista na Sessão – José Bleger
Sinopse: Bleger examina a função do analista em contextos de forte resistência e comunicação não verbal, especialmente em pacientes que usam o silêncio como defesa primária. Propõe conceitos como “situação aglutinada” e “encobrimento do vínculo” — fundamentais para pensar o lugar clínico do analista diante de pacientes que não demandam.
A Escuta do Analista: Clínica, Técnica e Ética – Miriam Chnaiderman
Sinopse: Um livro contemporâneo que discute com clareza a escuta analítica em situações difíceis. Chnaiderman articula ética, técnica e subjetividade do analista, especialmente quando confrontado com pacientes que falam pouco, desafiam o setting ou parecem “não querer nada” da análise.
A Prática Psicanalítica com Adolescentes – Armando Bauleo
Sinopse: Embora focado em adolescentes, Bauleo oferece contribuições valiosas sobre escuta em situações de análise forçada — comuns em contextos escolares, familiares ou institucionais. Ele reflete sobre como construir um espaço de subjetivação mesmo quando o paciente nega o desejo de estar ali.
Conclusão: Quando Não Há Demanda, o Que Sustentar?
A primeira sessão com um paciente que não escolheu estar ali não é, necessariamente, um fracasso clínico. Pelo contrário: é um campo privilegiado para observar o modo como o sujeito se posiciona diante da imposição, do Outro e da própria subjetividade.
O analista não deve se colocar como o “convocador de desejos”, mas como aquele que oferece um campo em que o desejo — se surgir — não será imediatamente interpretado, nomeado ou domesticado.
É preciso sustentar o vazio inicial sem se angustiar, confiar na potência do silêncio sem sucumbir à pressa, e oferecer uma escuta que não exige — mas convida.



