O Sujeito entre o Desejo e a Razão: Um Diálogo entre Freud e Kant
Matéria exclusiva para membros do Registro Nacional de Terapeutas e Psicanalistas – RNTP
A tensão entre o desejo e a lei: ética psicanalítica e razão prática
Freud inaugura um sujeito atravessado por pulsões inconscientes, para quem o desejo nunca se realiza plenamente, mas insiste. Kant, por outro lado, formula um sujeito racional e autônomo, capaz de agir segundo máximas que podem ser universalizadas. O primeiro nos fala da falta estrutural, o segundo, do dever como expressão da liberdade. Este artigo propõe uma travessia filosófico-clínica entre essas duas concepções de sujeito, perguntando: é possível escutar, na clínica, um sujeito que deseja irracionalmente, mas também se julga moralmente por isso?
Como advertiu Lacan: “O desejo é a essência do homem” — mas este desejo não é livre. Já Kant afirmava: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”. Aqui, entre a pulsão e a razão, está a travessia do sujeito ético.
A ética do desejo freudiana: o superego como resto moral
Na psicanálise, o sujeito é dividido. O inconsciente — estruturado como linguagem — não se submete à lógica racional da moral kantiana. Para Freud (1923), o superego é o herdeiro do complexo de Édipo, instaurando uma instância que julga, pune e exige. Mas essa exigência, diferente da razão kantiana, é gozo. Como afirma Birman (2000), a culpa neurótica não é resultado de uma escolha ética, mas da interdição mal elaborada.
Freud escreve, em O mal-estar na civilização (1930), que o superego é mais severo quanto mais virtuosa é a pessoa. Isso desafia diretamente a ideia kantiana de uma razão moral como expressão de liberdade.
A autonomia moral kantiana: a razão como liberdade
Para Kant, a autonomia é a capacidade de legislar a si mesmo, obedecendo não a impulsos, mas à razão. É pela razão prática que o sujeito se emancipa dos determinismos naturais e age por dever. A ética kantiana não depende de consequências, mas da forma da ação: se ela pode ou não ser universalizada.
Mas como pensar um sujeito que, segundo Freud, é movido por desejos inconscientes, por vezes destrutivos, infantis e antissociais? Kant concebe um sujeito íntegro; Freud, um sujeito dividido.
Ética clínica: escutar o sujeito entre o recalque e o imperativo
Na clínica, essa tensão entre o desejo e o dever se expressa frequentemente: o paciente que deseja algo, mas sente culpa; que age por compulsão e depois se julga moralmente. O terapeuta é, então, aquele que escuta o conflito — não para resolvê-lo, mas para permitir que o sujeito se responsabilize por seus atos sem precisar se identificar com o ideal moralizante.
“A ética da psicanálise não é a do bem, mas a do desejo” — Lacan.
Trata-se, então, de sustentar o campo do desejo sem cair nem no moralismo kantiano nem no hedonismo inconsequente. Escutar a culpa sem se aliar ao superego. Escutar o dever sem promover o recalque.
Entre a pulsão e a razão: é possível um juízo ético?
A ética freudiana não é normativa, mas interrogativa. A psicanálise não diz o que é certo ou errado — pergunta pelo desejo que sustenta um ato. Já Kant nos oferece uma régua: o imperativo categórico. Seria possível pensar que o juízo ético é onde essas duas instâncias se encontram?
A clínica não opera com imperativos, mas tampouco pode ignorar a razão. Escutar o conflito entre desejo e dever é também escutar o sujeito naquilo que ele pode decidir, sustentar, abdicar — enfim, transformar.
Conclusão: o sujeito como travessia entre razão e desejo
O sujeito freudiano não é o mesmo sujeito kantiano. Mas talvez a ética clínica contemporânea precise dos dois: da escuta da falta e do reconhecimento da liberdade. O desejo precisa ser ouvido, mas a ação precisa ser sustentada.
Ser terapeuta é, também, escutar essa tensão em si: o quanto ainda se deseja agradar o superego? O quanto ainda se quer ser o terapeuta “bom”, o “correto”, o “racional”?
Como diria Foucault (1979), “a ética é o cuidado de si”. E o cuidado de si começa pela escuta desse sujeito que, entre o desejo e a razão, tenta encontrar um caminho.
Livros recomendados para aprofundamento
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FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
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KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
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LACAN, Jacques. A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
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BIRMAN, Joel. Mal-Estar na Atualidade: A Psicanálise e as Novas Formas de Subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
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FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
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SAFATLE, Vladimir. Cinismo e Falência da Crítica. São Paulo: Boitempo, 2008.
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ZIZEK, Slavoj. Como Ler Lacan. São Paulo: Zahar, 2006.
Referências bibliográficas
FREUD, S. O ego e o id. Obras Completas, vol. XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
KANT, I. Crítica da razão prática. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
BIRMAN, J. A Ética Psicanalítica e o Sujeito Contemporâneo. São Paulo: Escuta, 2001.
ROUDINESCO, E. Por que a Psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
REVISTA CULT. “A tensão entre Freud e Kant: culpa, lei e desejo”. Revista Cult, 2022. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br
NOVA ESCOLA. “Kant: razão, moral e liberdade”. Nova Escola, 2023. Disponível em: https://novaescola.org.br
PÓS-GRADUAÇÃO PUC-SP. Psicanálise e Filosofia: interlocuções contemporâneas, 2024.




