Matéria exclusiva para membros do Registro Nacional de Terapeutas e Psicanalistas – RNTP
A escuta inaugural como fundação do vínculo terapêutico
As primeiras sessões psicoterapêuticas não são meramente introdutórias. Elas fundam o campo clínico, instauram o pacto terapêutico e inauguram o laço transferencial. O terapeuta é convocado a exercer uma escuta altamente sensível, que articule empatia, técnica, neutralidade e ética. O acolhimento inicial não é um mero “ouvir com atenção”, mas uma escuta que supõe a escavação do não dito, a presença diante da ausência simbólica e a tolerância ao desconhecido.
Como escreveu Bion: “A escuta analítica não é para encontrar respostas, mas para suportar perguntas” (BION, 1970).
Estabelecendo o setting: limites, contrato e alianças
A primeira sessão é um terreno liminar onde se decide, em boa medida, a continuidade do processo. A clareza com relação ao contrato terapêutico — frequência, valores, horários, confidencialidade, limites éticos — constitui a moldura do trabalho analítico.
Como afirma Laplanche: “Sem enquadre, não há análise. O setting é o corpo do analista” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1967).
O contrato é mais do que burocrático; ele oferece ao paciente uma experiência inaugural de contenção simbólica. O limite protege o processo.
Sensibilidade clínica: escutar além da fala
Em seu início, o paciente pode trazer uma narrativa fragmentada, defensiva ou excessivamente racionalizada. Cabe ao terapeuta escutar para além das palavras — silêncios, repetições, lapsos, expressões não verbais, deslocamentos. A sensibilidade clínica exige do terapeuta uma posição interna de atenção flutuante e neutralidade benevolente.
Como coloca Freud: “A neutralidade do analista é o espaço onde o paciente poderá ousar existir como nunca pôde” (FREUD, 1912).
As primeiras defesas: resistências e mecanismos de adaptação
É comum que o paciente traga, nas primeiras sessões, um conjunto de defesas inconscientes: racionalizações, idealizações do terapeuta, sarcasmo, ou mesmo a dificuldade de manter o olhar ou sustentar o silêncio. É papel do terapeuta acolher essas defesas como parte da estrutura psíquica e não combatê-las diretamente. Como nos ensina Ferenczi (1930), a empatia do analista é o primeiro antídoto contra a retraumatização.
Transferência precoce: o terapeuta como espelho simbólico
Mesmo nas primeiras sessões, os elementos da transferência já estão presentes. O paciente pode investir o terapeuta como figura idealizada, parental, salvadora ou persecutória. A sensibilidade clínica exige que o terapeuta reconheça esses sinais sem interpretá-los de maneira precoce, respeitando o tempo psíquico do sujeito.
Como disse Lacan: “A transferência é o desejo do analista” (LACAN, 1964), ou seja, a disponibilidade interna para sustentar a falta, o enigma e o desejo do Outro.
O papel do silêncio e da neutralidade ativa
O silêncio, frequentemente temido pelos iniciantes, é um recurso clínico potente. Quando bem manejado, permite a emergência do inconsciente e a autoconfrontação. Mas também pode ser vivenciado como abandono ou rejeição. A neutralidade ativa supõe presença silenciosa, mas não ausente. O terapeuta “fala” com o olhar, com o corpo, com a escuta.
Segundo Winnicott (1965): “A presença do analista é mais importante que sua fala. O silêncio pode ser a forma mais intensa de contato”.
Instrumentos terapêuticos nas primeiras sessões: do holding à confrontação ética
Dependendo da abordagem, o terapeuta pode recorrer a diferentes estratégias:
-
Psicanálise: escuta flutuante, não interpretação precoce, acolhimento das defesas.
-
Gestalt-terapia: foco na vivência presente, exploração da linguagem corporal, técnicas de cadeira vazia.
-
Terapia Cognitivo-Comportamental: identificação de pensamentos automáticos iniciais, contrato de metas, estruturação psicoeducativa.
-
Terapia do Esquema: ativação precoce de modos infantis, exploração de esquemas nucleares, validação emocional.
-
Análise Bioenergética: observação da postura, contato ocular, respiração e contenção corporal.
-
Terapias sistêmicas: exploração das dinâmicas familiares transgeracionais, perguntas circulares e genogramas.
-
Fenomenologia existencial: escuta do sentido subjetivo, presença empática radical, suspensão de juízo.
A contra-transferência inicial: o terapeuta também é afetado
Todo terapeuta sente, ressoa, se emociona. A contra-transferência é inevitável, especialmente no início, quando o campo emocional ainda está em construção. Reconhecer os afetos, elaborar em supervisão e não agir impulsivamente é sinal de maturidade clínica.
Como lembra Irvin Yalom (2006): “A empatia verdadeira supõe coragem para entrar no mundo do outro, mas sem perder o mapa de volta”.
A jornada do paciente começa pela coragem de confiar
A primeira sessão é, para o paciente, um salto no escuro. Trazer sua dor, seus medos e sua história para um estranho exige coragem. O terapeuta que reconhece essa entrega inicial e a honra com respeito cria uma base sólida para a continuidade do processo.
Como diz Carl Rogers: “A aceitação do outro como ele é, neste momento, é a condição para qualquer mudança real” (ROGERS, 1951).
Considerações finais: o início como ato clínico decisivo
O começo da psicoterapia não é um prólogo. É o próprio ato fundante da clínica. A maneira como o terapeuta escuta, estrutura, acolhe e sustenta o vínculo nas primeiras sessões determinará em grande medida a profundidade, o alcance e a possibilidade de transformação do processo terapêutico.
Como diz Jung: “Encontros significativos entre duas almas sempre deixam uma marca, ainda que durem apenas uma hora” (JUNG, 1961).
Livros recomendados
-
FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor transferencial. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
-
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
-
YALOM, Irvin. O Carrasco do Amor. São Paulo: Agir, 2006.
-
ROGERS, Carl. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
-
LOWEN, Alexander. Bioenergética. São Paulo: Summus, 1975.
-
PERLS, Fritz. Gestalt-terapia Explicada aos Céticos. São Paulo: Summus, 1992.
-
YOUNG, Jeffrey et al. Terapia do Esquema: Guia do Terapeuta. Porto Alegre: Artmed, 2008.
-
BION, Wilfred. Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 1973.
-
JUNG, C. G. Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
Referências bibliográficas
FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912). In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
BION, W. A. Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 1973.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
JUNG, C. G. Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
ROGERS, C. R. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
YALOM, I. D. O Carrasco do Amor. São Paulo: Agir, 2006.
Artigos de apoio:
FERREIRA, M. A. (2022). “A construção do vínculo terapêutico na clínica contemporânea”. Revista Brasileira de Psicoterapia, 24(3), 145-162.
OLIVEIRA, L. B. (2023). “Economia da empatia: o valor simbólico da escuta clínica”. Revista de Psicologia Econômica e Clínica, 17(1), 89-104

“A escuta que inaugura a cura não é a que responde, mas a que sustenta o silêncio onde o outro, enfim, pode existir.”

