Matéria exclusiva para membros do Registro Nacional de Terapeutas e Psicanalistas – RNTP
A raiva como linguagem: da transferência negativa ao ataque simbólico
No setting terapêutico, não é incomum que o terapeuta se torne alvo de hostilidade, ressentimento ou raiva por parte do paciente. Esses afetos, por vezes intensos, não indicam necessariamente falha do analista, mas podem revelar camadas profundas do processo transferencial.
Como escreveu Melanie Klein: “O amor e o ódio fazem parte do mesmo objeto. A análise só pode acontecer quando se pode tolerar a ambivalência” (KLEIN, 1946).
Este artigo propõe uma leitura técnica e ética de como manejar esses momentos, preservando a função terapêutica e o vínculo, sem recuar diante do desconforto ou agir em contratransferência.
A raiva como fenômeno transferencial
A hostilidade dirigida ao terapeuta pode emergir em diversas formas:
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Transferência negativa: projeções de figuras parentais persecutórias.
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Resistência à mudança: o terapeuta é percebido como um agente de desconstrução de defesas.
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Reatualização de traumas: vivências antigas de abuso, abandono ou frustração que são revividas no setting.
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Frustração do desejo: o analista, ao manter o enquadre e os limites, torna-se frustrador de expectativas idealizadas.
Como lembra Bion (1970): “O analista deve ter a capacidade negativa: suportar não saber, não reagir, tolerar o caos emocional”.
Manejo clínico: escutar sem retaliar
Quando o paciente expressa raiva, é fundamental que o terapeuta:
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Não interprete prematuramente o afeto.
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Tolerar emocionalmente o ataque, reconhecendo-o como parte do processo.
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Nomear o afeto quando houver espaço: “Percebo que há uma irritação comigo. Podemos falar sobre isso?”
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Sustentar o vínculo, mesmo sob ataque, para que o paciente experimente uma nova forma de relação.
Como ensina Winnicott (1969): “O paciente precisa destruir o objeto e ver que ele sobrevive”.
A contratransferência: reconhecer o próprio desconforto
Nenhum terapeuta é neutro. Sentir-se ferido, frustrado ou injustiçado é humano. A diferença está no que se faz com isso.
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Supervisão constante é essencial para elaborar esses afetos.
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Autocuidado: momentos de raiva intensa e repetida podem levar ao esgotamento do analista.
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Reflexão sobre os próprios limites: é ético sustentar ataques contínuos sem perda da função clínica?
Segundo Ogden (1994), o campo analítico é um “sonhar compartilhado”. Quando um dos lados não consegue mais sonhar junto, o processo pode estar em risco.
Técnica: diferentes abordagens terapêuticas para o manejo da raiva
Psicanálise clássica: escuta da transferência negativa como reveladora da estrutura psíquica.
Terapias relacionais: valorização da mutualidade e da reparação emocional.
Gestalt-terapia: foco na expressão direta do afeto e na responsabilização pelas emoções.
Terapia cognitivo-comportamental: psicoeducação sobre a raiva, distorções cognitivas e ensaio de novas respostas.
Terapia do Esquema: a raiva como ativação de modos infantis disfuncionais, que devem ser acolhidos e reestruturados.
Ética e limites: quando o analista precisa intervir
É necessário distinguir raiva simbólica de agressões verbais destrutivas ou ameaças reais.
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Acolher não é aceitar tudo: há momentos em que o limite protege o vínculo.
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Confrontar com firmeza clínica: “Essa forma de se dirigir a mim compromete nosso trabalho. Podemos pensar sobre isso juntos?”
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Encaminhamento ou interrupção: em casos de violência, perseguição ou invasão de privacidade, o rompimento pode ser necessário.
Como afirma Viktor Frankl: “Liberdade não é ausência de limites, mas responsabilidade diante de si mesmo”.
A raiva como oportunidade: reparações possíveis no vínculo
Quando bem manejada, a raiva do paciente pode abrir espaços terapêuticos transformadores:
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Elaboração de vivências de abandono, injustiça ou humilhação.
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Vivência de que o outro pode sobreviver sem retaliar.
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Construção de uma nova narrativa de vínculo.
A clínica torna-se, assim, espaço de reedição simbólica da história afetiva do sujeito.
Considerações finais: o terapeuta como continente emocional
Ser alvo da raiva do paciente é um dos maiores testes da função terapêutica. Exige do analista um equilíbrio entre firmeza e escuta, técnica e afeto, ética e presença.
Como dizia Carl Jung: “Conhecer a própria escuridão é o melhor método para lidar com a escuridão dos outros”.
O terapeuta que acolhe o afeto raivoso sem desorganizar-se oferece ao paciente não apenas contenção, mas possibilidade de transformação profunda.
Livros recomendados
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KLEIN, Melanie. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
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WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
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BION, Wilfred. A Atenção e a Interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 1973.
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OGDEN, Thomas. O Sujeito da Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
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YALOM, Irvin. O Carrasco do Amor. São Paulo: Agir, 2006.
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LEVIN, Fred. Psicoterapia de Pacientes Difíceis. Porto Alegre: Artmed, 2012.
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FERENCZI, Sándor. Diários Clínicos. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
Referências bibliográficas
KLEIN, Melanie. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: Escritos de Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1978.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
BION, Wilfred. Aprendendo com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
OGDEN, Thomas. Matérias-primas para a Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2005.
YALOM, Irvin D. O Carrasco do Amor. São Paulo: Agir, 2006.
“Quando o terapeuta se torna alvo da raiva, é porque tocou no ponto exato onde o sujeito grita para não mais calar o que doeu em silêncio por toda uma vida.”




