Matéria exclusiva para membros do Registro Nacional de Terapeutas e Psicanalistas – RNTP
O vazio como fundamento da clínica: entre o desejo e a espera
Na trajetória clínica, não é raro que o analista iniciante se confronte com a angústia do vazio: agendas esparsas, poucos pacientes, incertezas financeiras. Esse vazio, longe de ser apenas um obstáculo prático, revela-se como uma estrutura ontológica que tensiona o desejo e organiza a função clínica.
Como observa Lacan (1960): “O desejo do analista não é desejo de curar, mas de sustentar o desejo.”
Assim, a escassez inicial pode ser lida não como falha, mas como condição constitutiva do exercício clínico: o intervalo onde o desejo do analista se prova mais sólido que a pressa do mercado.
Ontologia do vazio: a clínica como lugar de preparação
Do ponto de vista filosófico, o vazio não é mera ausência, mas potência de atualização. Aristóteles (Metafísica, Livro Θ) já distinguia ato e potência: o que não está preenchido carrega em si a virtualidade de ser.
Aplicado à clínica, esse conceito indica que o tempo de escassez não é “tempo perdido”, mas tempo de formação, de espera ativa, onde o analista fortalece sua escuta, sua escrita clínica, seu estudo e sua reflexão.
Bion (1970) lembra: “Aprender com a experiência exige suportar a frustração de não saber e, sobretudo, de não possuir.”
Psicanálise da escassez: transferência, angústia e função do desejo
O analista iniciante, diante da escassez de pacientes, pode projetar sobre si fantasias de fracasso, insuficiência ou até abandono. Aqui, surge um paradoxo: aquele que escuta as angústias alheias é chamado a escutar sua própria.
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Transferência narcísica: o vazio da agenda é lido como ataque ao valor pessoal do analista.
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Ansiedade de castração: a falta de pacientes simboliza a impotência diante do ideal clínico.
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Compulsão a preencher: alguns, para não tolerar a espera, enchem a agenda de compromissos acadêmicos ou paralelos, desviando-se da escuta clínica.
Segundo Winnicott (1965): “A capacidade de estar só é uma das maiores conquistas da maturidade.” Aqui, estar só também é suportar o consultório vazio, sem ceder ao desespero.
Dimensão econômica e ética do vazio clínico
O vazio também possui implicações econômicas e éticas. O terapeuta vive em uma tensão entre a clínica como prática do desejo e a clínica como profissão que deve sustentar a vida.
Na perspectiva da filosofia prática, trata-se de conciliar necessidade material com fidelidade ao desejo clínico. Não se trata de negar a realidade econômica, mas de não reduzir a clínica a ela.
Como recorda Viktor Frankl (2005): “O sentido não se encontra na utilidade imediata, mas na responsabilidade diante de si mesmo e do mundo.”
Estratégias clínicas e terapêuticas diante da escassez
O manejo do vazio exige técnica, ética e reflexão:
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Escrita clínica: manter registros detalhados dos atendimentos, fortalecendo o olhar analítico.
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Supervisão: elaborar as ansiedades transferenciais que emergem diante da falta de pacientes.
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Estudo dirigido: organizar leituras e formações específicas, transformando o tempo livre em investimento clínico.
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Prática interdisciplinar: dialogar com outras abordagens (TCC, Gestalt, Terapia do Esquema) para enriquecer o repertório clínico.
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Autocuidado: preservar a saúde mental do analista, que pode se sentir “inútil” diante da espera.
Ferenczi (1930) já alertava: “O analista só pode sustentar o outro se aprende a sustentar a si mesmo em sua fragilidade.”
O desejo como motor da clínica
O vazio ensina que o analista não é contratado apenas para “resolver sintomas”, mas para sustentar um espaço de desejo. O trabalho clínico amadurece na espera, na escassez e na confiança de que o tempo do paciente não é o tempo do mercado, mas o tempo da subjetividade.
Como sintetiza Thomas Ogden (1994): “A clínica é o lugar onde dois sujeitos aprendem a sonhar juntos.”
Considerações finais: a escassez como forma de iniciação clínica
Suportar o vazio não é apenas suportar o início difícil da clínica, mas é já estar em análise com a própria prática. É aceitar que o desejo é estruturado na falta e que o analista, para sustentar o desejo do outro, precisa primeiro suportar o próprio vazio.
Assim, a escassez não é inimiga do terapeuta, mas sua mestra.
Livros recomendados
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FREUD, Sigmund. Obras Completas de Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
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WINNICOTT, D. W. O Ambiente e os Processos de Maturação. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
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BION, Wilfred. Aprendendo com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
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OGDEN, Thomas. Matérias-primas para a Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
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FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2005.
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YALOM, Irvin D. O Carrasco do Amor. São Paulo: Agir, 2006.
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HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
Referências bibliográficas
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FREUD, S. A prática da psicanálise. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
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LACAN, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
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WINNICOTT, D. W. A capacidade de estar só. In: O ambiente e os processos de maturação. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
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BION, W. Aprendendo com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
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FERENCZI, S. Diários Clínicos. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
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OGDEN, T. Matérias-primas para a Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
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FRANKL, V. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2005.
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HAN, B-C. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
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SOUZA, R. M. (2022). “Escassez e desejo: fundamentos ontológicos da clínica contemporânea”. Revista Brasileira de Filosofia e Psicanálise, 28(2), 115-134.
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LIMA, A. C. (2023). “O vazio produtivo na clínica: reflexões sobre economia psíquica e tempo terapêutico”. Revista de Filosofia Contemporânea, 19(1), 45-62.

“O vazio não é ausência, mas potência: é nele que o desejo do analista encontra sua forma mais pura.”

