Como Trabalhar com Pacientes que Não Sabem o que Querem da Terapia?
A clínica da ausência de demanda, do desejo difuso ou forjado socialmente. Técnica, ética e escuta.
Matéria exclusiva para membros do Registro Nacional de Terapeutas e Psicanalistas – RNTP
A clínica diante da não-escolha: quando o desejo não se formula
Nem sempre o sujeito chega à terapia com um pedido claro. Na verdade, muitos chegam com um mal-estar mal nomeado, uma angústia genérica ou uma insatisfação difusa. Há também os que comparecem como cumprimento de um roteiro social, como quem “faz terapia” porque hoje isso é esperado — um traço quase performativo, moldado pelo discurso contemporâneo do autocuidado.
Essa cena clínica, marcada pela ausência de demanda clara ou pela presença de um desejo forjado socialmente, desafia os fundamentos técnicos e éticos da prática psicoterapêutica e psicanalítica. O analista não se depara com a recusa explícita da análise, como no caso de pacientes encaminhados à força. O que está em jogo aqui é mais sutil: o sujeito que parece desejar estar ali, mas não sabe o que quer — ou deseja desejar.
Quando o sintoma não se articula em demanda
Frequentemente, o sujeito chega dizendo que “precisa de ajuda”, mas quando se pergunta “ajuda com o quê?”, não há resposta consistente. O sofrimento existe, mas não se organiza em torno de uma narrativa. Há sintomas, sim, mas ainda não transformados em questões — eles aparecem como que desconectados da subjetividade.
Esse impasse não é meramente clínico, mas estrutural: como escutar alguém que não sabe o que busca? Como sustentar a escuta quando o pedido é genérico ou mesmo ausente? O desafio aqui é ético, técnico e transferencial.
Desejo difuso: entre o ideal social e o mal-estar contemporâneo
A clínica atual é atravessada por um fenômeno curioso: o paciente que não sabe por que está ali, mas sente que deveria estar. É o sujeito que, muitas vezes, busca na terapia um ideal de performance emocional: ser mais calmo, mais produtivo, mais “resolvido”. Ele não sofre propriamente — ele fracassa em atingir os padrões de equilíbrio afetivo esperados pela sociedade neoliberal da autoajuda.
Essa lógica fabrica demandas forjadas, produzidas mais pelo discurso do Outro social do que por um desejo singular. O sofrimento é real, mas sua forma de expressão e nomeação está colada a manuais, tendências de bem-estar e narrativas genéricas.
“A psicanálise não responde a uma expectativa de funcionalidade. Ela escuta o desejo — mesmo quando ainda sem nome.”
— Jacques-Alain Miller
A escuta sem objeto: técnica diante do desejo em construção
Diante desse sujeito que comparece à terapia, mas não sabe o que quer dela, a escuta precisa operar sem se antecipar, sem seduzir e sem preencher o vazio da fala com interpretações prematuras. Trata-se de sustentar um espaço onde o desejo possa vir a se enunciar — ainda que fragmentado, hesitante ou contraditório.
Algumas posturas técnicas fundamentais:
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Evite a pedagogia explicativa: Tentar “ensinar” ao paciente o que é análise ou terapia pode reforçar a lógica da performance. Não se trata de convencê-lo, mas de escutá-lo — ainda que no silêncio.
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Acolha o não-saber do sujeito: A frase “não sei o que estou fazendo aqui” pode ser mais potente do que aparenta. Não é uma falha, mas um ponto de partida.
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Escute o sintoma como mensagem ainda indecifrada: Quando o paciente se queixa de um cansaço constante ou de uma ansiedade genérica, talvez esteja tentando dizer algo que ainda não sabe como dizer.
Clínica da ausência de demanda: riscos e potências
É comum que, nesses casos, o analista sinta-se perdido, frustrado ou até mesmo entediado. O trabalho clínico pode parecer improdutivo. Mas essa sensação contratransferencial é parte do campo. É preciso atenção a dois riscos principais:
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O risco de preencher o vazio: Ao sentir que “não há material clínico”, o analista pode cair na tentação de oferecer conselhos, orientações ou interpretações excessivas. Isso inibe o processo.
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O risco de se aliar ao ideal social: Validar demasiadamente os objetivos genéricos do paciente (ser mais calmo, ter mais foco, lidar melhor com o estresse) pode impedir o surgimento de questões mais profundas.
Por outro lado, há uma potência clínica imensa nesses encontros. Quando o sujeito começa a nomear o seu “não saber”, há um deslocamento subjetivo em curso. O analista precisa sustentar o lugar de não saber também — mas um não saber operante, atento, ético.
Construindo o desejo: tempo, escuta e sustento
O processo terapêutico, nesses casos, pode ser lento. Às vezes, as primeiras sessões se repetem em padrões circulares. Não há “história”, apenas fragmentos. Mas é justamente aí que algo pode emergir.
Estratégias clínicas úteis:
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Nomear sem interpretar: “Você ainda não sabe o que espera daqui” pode ser uma intervenção que espelha sem invadir.
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Sustentar a cena com neutralidade benevolente: A escuta deve ser firme, mas não intrusiva. Atenta, mas sem pressa.
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Observar o ritmo e a linguagem corporal: Muitas vezes, a posição do corpo, os silêncios e as pausas dizem mais do que as palavras.
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Apostar na transferência silenciosa: Mesmo quando não se fala “nada”, algo se constrói no vínculo.
Leituras do vazio: o desejo como fenda
A psicanálise nos ensina que o desejo não se apresenta de forma clara e direta. Ele surge como fenda, como resto, como tropeço. Portanto, é legítimo que a clínica se inicie sem saber o que se busca. O importante é que algo da ordem da subjetividade se ponha em movimento.
“Não há clínica sem desejo, mas o desejo pode estar em latência. Cabe ao analista suportar esse tempo.”
— Janine Puget
Referências Clínicas Fundamentais
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FÉDIDA, Pierre – O corpo do enigma
Obra essencial para compreender a presença psíquica e o modo como o corpo pode carregar o que não se diz. -
GREEN, André – O discurso vivo
Trabalha os modos de presença e ausência na linguagem. Ideal para pensar o sujeito que fala muito, mas não diz nada. -
CHNAIDERMAN, Miriam – A escuta do analista: clínica, técnica e ética
Uma referência contemporânea que aborda com lucidez os desafios da escuta quando o desejo está difuso. -
NASIO, Juan-David – O prazer de ler Freud
Através da releitura de casos clássicos, mostra como o desejo se constrói por vias indiretas. -
WINNICOTT, D. W. – A natureza humana
Discute o conceito de falso self, comum em sujeitos que comparecem à terapia para agradar ou corresponder a um ideal. -
SMADJA, Claude – A clínica das situações-limite
Importante para pensar os sujeitos que flutuam entre o silêncio defensivo e o excesso de fala sem elaboração.
Livros Complementares
Janine Puget – Intersubjetividade e Psicanálise
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Sinopse: Obra fundamental para pensar a clínica em contextos de apagamento do sujeito. Janine Puget propõe a noção de campo intersubjetivo, onde o analista e paciente constroem, juntos, a possibilidade de emergência do desejo, mesmo em situações de silêncio ou ausência de demanda.
Joel Birman – Mal-Estar na Atualidade
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Sinopse: Reflete sobre as novas formas de sofrimento psíquico contemporâneo, em que a ausência de desejo e a anulação subjetiva surgem como marcas centrais. Importante para entender o sujeito “despotencializado” que chega ao consultório.
Maria Rita Kehl – O Tempo e o Cão: A Atualidade das Depressões
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Sinopse: Kehl analisa as depressões como formas de resistência e apagamento do desejo em uma cultura voltada à performance. Essencial para trabalhar com pacientes que “não sabem o que querem” e se apresentam esvaziados de desejo.
Silvia Bleichmar – La fundación del inconsciente
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Sinopse: A autora argentina articula teoria freudiana com clínica infantil, mas seus conceitos se aplicam amplamente: ela propõe a ideia de que o inconsciente precisa ser construído nas condições certas — algo fundamental para pensar pacientes sem demanda.
Ricardo Goldenberg – Freud Também Pensava no Brasil
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Sinopse: Aborda como a clínica psicanalítica lida com a “não demanda” e os atravessamentos culturais, sociais e políticos no desejo. Um livro provocativo que traz o debate da resistência e da escuta em tempos de discursos prontos.
Jurandir Freire Costa – A Invenção do Desejo
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Sinopse: Explora como o desejo pode ser uma construção histórica e subjetiva, e não algo dado. Importante para pensar como trabalhar em análise com sujeitos cuja vontade parece ser reflexo do Outro.
Thomas Ogden – The Primitive Edge of Experience ()
→ A Borda Primitiva da Experiência
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Sinopse: Ogden discute pacientes “não simbólicos”, onde a fala ainda não encontrou corpo. Trabalha com a noção de experiência não-metabolizada e a importância de suportar o vazio transferencial sem pressa de preencher.
Christopher Bollas – The Shadow of the Object: Psychoanalysis of the Unthought Known ()
→ A Sombra do Objeto: Psicanálise do Conhecido Não Pensado
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Sinopse: Bollas desenvolve a ideia de conteúdos inconscientes não verbalizados, que estruturam pacientes “sem queixa”, mas profundamente em sofrimento. A escuta do analista deve captar essas zonas de silêncio onde o desejo se esconde.
André Green – Le travail du négatif ()
→ O Trabalho do Negativo
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Sinopse: Um clássico sobre a clínica da ausência. Green aborda os mecanismos de recusa, negação e destruição simbólica, tão comuns em pacientes que chegam “sem saber o que querem”. Crucial para sustentar uma escuta da negatividade psíquica.
Colette Soler – Qu’est-ce qu’un analysant ? ()
→ O Que é um Analisante?
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Sinopse: Soler trabalha a ideia do sujeito que, mesmo em análise, pode não ocupar de fato a posição de analisante. Reflexão afiada sobre a ética da escuta em contextos onde o desejo não se sustenta.
Jean Laplanche – Problématiques IV : L’inconscient et le ça ()
→ Problemáticas IV: O Inconsciente e o Id
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Sinopse: Laplanche aprofunda a noção de inconsciente como algo que precisa ser escutado e não interpretado prematuramente. Indicado para casos onde o desejo é ambíguo ou imposto, e o analista precisa trabalhar com o “quase silêncio”.
Estela Welldon – Mother, Madonna, Whore: The Idealization and Denigration of Motherhood ()
→ Mãe, Madona, Prostituta
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Sinopse: Apesar do foco em clínica feminina, Welldon oferece ferramentas para pensar pacientes que reproduzem posições subjetivas impostas (idealizadas ou denegridas), sem espaço para a escuta de si próprios.
Antonino Ferro – The Analytic Field and its Transformations ( / )
→ O Campo Analítico e Suas Transformações
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Sinopse: Ferro trata a sessão como um campo simbólico em constante mutação. Sua abordagem favorece trabalhar com pacientes “sem demanda” por meio de intervenções que visam gerar afetos e imagens, não respostas racionais.
Piera Aulagnier – La violence de l’interprétation ()
→ A Violência da Interpretação
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Sinopse: Obra crítica à interpretação precipitada. Aulagnier mostra como o analista pode exercer violência simbólica ao tentar nomear um desejo que ainda não emergiu. Essencial para pensar ética na escuta de quem ainda não se subjetivou na análise.
Willy Baranger & Madeleine Baranger – The Analytic Situation as a Dynamic Field (/)
→ A Situação Analítica como Campo Dinâmico
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Sinopse: O casal Baranger propõe uma escuta não apenas do paciente, mas do campo compartilhado. Muito útil para lidar com resistências e impasses em pacientes cujo desejo é fragmentado ou apenas encenado.
Conclusão: Quando o Desejo Ainda Não Chegou
A clínica do desejo ausente não é uma clínica vazia. Pelo contrário: é uma clínica de escuta radical, de sustentação ética e de aposta no tempo do sujeito. Não se trata de “fazer o paciente descobrir o que quer”, mas de estar com ele no processo de invenção do seu próprio querer.
O analista, aqui, é aquele que suporta o não saber, que escuta sem exigir, e que confia que até mesmo o silêncio contém um começo.
“Porque, às vezes, o que o sujeito mais precisa não é entender o que quer — é descobrir que pode querer.”
— RNTP



