A Vontade de Potência e o Desejo do Outro: Nietzsche e Lacan na Clínica Contemporânea
Matéria exclusiva para membros do Registro Nacional de Terapeutas e Psicanalistas – RNTP
A clínica como campo de forças: entre o excesso nietzschiano e a falta lacaniana
No cenário da clínica contemporânea, onde o sujeito aparece muitas vezes marcado pela desorientação, pela dispersão do desejo e por imperativos de gozo, o diálogo entre Friedrich Nietzsche e Jacques Lacan revela-se não apenas fecundo, mas urgente. De um lado, temos a vontade de potência como força afirmativa da vida, que recusa a moral do ressentimento e da culpa. De outro, o desejo do Outro, estruturante da subjetividade, mas sempre em falta — um desejo que escapa ao sujeito e que o determina como dividido.
Este artigo propõe uma travessia entre esses dois pensadores aparentemente inconciliáveis: Nietzsche, o filósofo do excesso, e Lacan, o psicanalista da falta. Ambos, contudo, enfrentam a mesma questão: como o sujeito se constitui em meio à tensão entre aquilo que deseja afirmar e aquilo que nunca pode plenamente realizar?
Vontade de potência: além da moral e da adequação
Nietzsche define a vontade de potência (der Wille zur Macht) não como desejo de dominação, mas como um princípio ontológico de criação, transformação e interpretação. Em A Gaia Ciência, ele escreve: “Não existem fatos, apenas interpretações”. O sujeito nietzschiano é, portanto, um intérprete — e sua saúde psíquica depende da capacidade de criar sentidos próprios, não de submeter-se aos valores herdados.
Essa concepção é absolutamente clínica: o que vemos no consultório, frequentemente, são sujeitos colapsados pela interiorização de discursos morais e sociais normativos. Desejam ser produtivos, positivos, funcionais — mas não potentes. Desejam a aprovação do Outro — não a expressão de sua força singular. Eis a clínica do ressentimento.
Nietzsche oferece aqui uma chave: o sofrimento não é, necessariamente, patológico. Ele se torna adoecimento quando é negado como força criativa e é transformado em culpa ou paralisia. Assim, o terapeuta que escuta a partir de Nietzsche não busca “consertar” o paciente, mas escutá-lo em sua potência de se tornar outro.
Desejo do Outro: a estrutura da falta
Lacan, por sua vez, parte da estrutura. Em sua leitura de Freud, o sujeito está marcado por uma perda inaugural — a entrada na linguagem, que o aliena do gozo pleno. Daí, o desejo do Outro: o desejo é sempre o desejo de algo que o Outro deseja ou que o sujeito supõe que o Outro deseje.
No Seminário 11, Lacan afirma: “O inconsciente é o discurso do Outro”. O sujeito, ao desejar, deseja ser o objeto que falta ao Outro. Mas esse lugar é impossível — e o desejo permanece insatisfeito. O desejo é, assim, constitutivamente errante, incompleto e deslocado.
Para Lacan, não há clínica sem essa escuta da falta. A tarefa analítica é sustentar o desejo como desejo — não saturá-lo, não preenchê-lo, não instrumentalizá-lo. Isso implica, inclusive, suportar o sofrimento do sujeito quando ele se dá conta de que não há outro que o garanta completamente.
⚖️Nietzsche e Lacan: um encontro improvável — e necessário
O que pode resultar do encontro entre a vontade de potência e o desejo do Outro?
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Nietzsche nos alerta contra o perigo de uma clínica moralizante, que busca normalizar o sujeito. Para ele, “todo idealismo é mentira a serviço da moral”. A potência só emerge quando o sujeito se autoriza a criar novos valores.
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Lacan, por sua vez, nos lembra que não há acesso direto a essa potência. O sujeito está estruturalmente dividido, alienado no significante e no desejo do Outro. A análise é o campo onde esse impasse pode ser sustentado, interpretado e, eventualmente, atravessado.
O ponto de convergência está na clínica como espaço de invenção subjetiva. Se Nietzsche nos propõe a “transvaloração de todos os valores”, Lacan propõe a destituição subjetiva como condição para o desejo autêntico. Ambas as vias exigem que o sujeito não se confunda com os ideais que o habitam.
A clínica: entre o abismo e a criação
A clínica contemporânea apresenta sujeitos marcados por um vazio estrutural, mas também por uma impotência performática. Eles não apenas desejam algo que nunca chega — eles desejam “ser desejantes”, desejam cumprir expectativas que nunca foram suas.
Nesse cenário, escutar à luz de Nietzsche e Lacan implica:
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Sustentar a incompletude como constitutiva do sujeito, sem cair no niilismo clínico.
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Recusar a moral da “cura” como retorno à norma, e abrir espaço para a reinvenção dos modos de ser.
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Tratar o sintoma como criação singular, como tentativa de dar forma à potência ainda não simbolizada.
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Interrogar o desejo como algo que se constrói na transferência, e não como um dado a ser decifrado pelo terapeuta.
Nietzsche diria: “Torna-te quem tu és”. Lacan responderia: “O sujeito é uma resposta do real”.
Estratégias técnicas: para uma clínica da potência faltante
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Evite a normatização excessiva: quando o paciente diz “quero ser mais feliz, mais calmo, mais produtivo”, pergunte: “para quem?”.
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Escute os sintomas como restos de uma potência mal-situada: o sintoma pode ser um modo de criar sentido quando o desejo não encontrou vias de expressão.
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Nomeie a falta sem tentar preenchê-la: sustentar o vazio é permitir que o desejo se manifeste como processo.
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Acompanhe a criação de novos significantes: o sujeito que começa a nomear sua experiência está em processo de construção de si.
Leituras fundamentais para o aprofundamento
Nietzsche
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A Gaia Ciência: sobre a criação de valores e a alegria trágica.
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Além do Bem e do Mal: crítica aos valores morais herdados.
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Assim Falou Zaratustra: o eterno retorno e a figura do além-do-homem.
Lacan
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Seminário 7 – A Ética da Psicanálise: onde a clínica se articula ao trágico.
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Seminário 11 – Os Quatro Conceitos Fundamentais: desejo, falta, real e transferência.
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Escritos – Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo: texto seminal sobre o desejo do Outro.
Autores contemporâneos
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Clément Rosset – O Real e Seu Duplo
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Janine Puget – O Desejo e Sua Construção
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Colette Soler – O Que é um Analisante?
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Joel Birman – Mal-Estar na Atualidade
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Maria Rita Kehl – O Tempo e o Cão
✨Conclusão: clínica da potência trágica
Unir Nietzsche e Lacan na escuta clínica é sustentar o paradoxo: o sujeito deseja afirmar sua singularidade (potência), mas está condenado a desejar através do Outro (falta). A clínica não é o lugar da solução, mas da travessia.
Ser terapeuta, nesse horizonte, é suportar a tensão entre criação e estrutura, entre sentido e silêncio. É acompanhar o sujeito na lida com o que falta — sem prometer plenitude — e ao mesmo tempo abrir espaço para o que pode emergir como novo, inesperado, próprio.



