A Primeira Entrevista Clínica: O Que Observar, Anotar e Perguntar?
Como conduzir os primeiros encontros com escuta aberta, presença afetiva e critérios clínicos
A Entrevista Como Porta de Entrada
A primeira entrevista clínica — ou os primeiros encontros — é o momento em que o analista e o paciente começam a construir a relação que sustentará todo o processo terapêutico. Mais do que colher informações, trata-se de uma experiência inaugural: ambos estão sendo apresentados não apenas um ao outro, mas também àquilo que, naquele setting, pode emergir do inconsciente.
Nesse momento, o analista precisa manejar simultaneamente dois movimentos:
Acolher o discurso do paciente com escuta flutuante, sem pressa por entender tudo de imediato.
Organizar, internamente, algumas referências clínicas que ajudem a delimitar o campo psíquico que está se formando.
Essa etapa exige do analista uma postura clínica ativa, porém não diretiva; atenta, mas não invasiva; aberta ao inesperado, mas sustentada por uma escuta treinada. E sim, é possível estar preparado — sem estar engessado — para esse momento tão delicado.
O Que Observar: Muito Além das Palavras
Observar não é apenas “ver” ou “ouvir”. Envolve um olhar clínico que integra aspectos verbais, não verbais, transferenciais e até mesmo contratransferenciais. Alguns eixos fundamentais de observação:
Apresentação do Paciente
- Como ele se apresenta? Formal, descontraído, evasivo?
- Há discrepância entre o conteúdo e o afeto demonstrado?
- Ele fala com facilidade ou há bloqueios?
Forma do Relato e Organização do Discurso
- O discurso é linear ou fragmentado?
- O paciente mistura passado e presente com fluidez ou confusão?
- Há elementos de delírio, devaneios, fuga de ideias?
Primeiras Marcas Transferenciais
- Ele te posiciona como uma figura de autoridade? De confiança? De ameaça?
- Usa um tom sedutor, desafiante, indiferente?
- Faz perguntas sobre você como pessoa ou profissional?
Contratransferência Inicial
- Que tipo de afeto você experimenta durante a escuta? Entusiasmo, impaciência, inquietação?
- Você se sente absorvido pela narrativa ou disperso?
- Há algo no corpo — cansaço, tensão, sono, inquietação — que parece estranho ou deslocado?
Esses elementos são pistas sobre o tipo de vínculo que está sendo ensaiado, e ajudam a compor um primeiro retrato da organização psíquica do paciente.
O Que Perguntar: Roteiros Possíveis, Não Regras
Não se trata de fazer uma entrevista estruturada com perguntas fixas — isso pode bloquear a espontaneidade do encontro. Mas há perguntas que funcionam como aberturas simbólicas, caminhos para que o sujeito se apresente em sua linguagem, não na linguagem da norma.
Perguntas que favorecem a escuta clínica:
- “O que te trouxe aqui?”
Simples, direta, mas poderosa. Permite que o paciente escolha por onde começar.
- “Já fez terapia antes?”
Abre espaço para entender experiências anteriores — positivas ou traumáticas — que impactam a transferência atual.
- “Como percebe o próprio sofrimento?”
Ajuda a avaliar a dimensão simbólica do sintoma.
- “Como isso tem afetado sua vida hoje?”
Direciona o discurso para o aqui-e-agora.
- “Tem algo que espera encontrar nesse processo?”
Explora expectativas, idealizações e possíveis resistências.
Evite perguntas muito fechadas ou técnicas, como “você tem pensamentos intrusivos?” ou “qual seu diagnóstico anterior?”, a não ser que surja necessidade pontual, por questões de risco, por exemplo.
O Que Anotar: Registro Como Continente Clínico
As anotações do analista não são apenas burocráticas — são instrumentos clínicos. Mas o que merece ser anotado?
Elementos essenciais para o registro:
- Motivo de procura: com as palavras do paciente, se possível.
- Marcadores temporais: eventos recentes ou passados que surgem na fala.
- Termos simbólicos fortes: metáforas, imagens, sonhos, lapsos, repetições.
- Dinâmica relacional: como o paciente se posiciona em relação a figuras importantes (pais, parceiros, chefes) e ao analista.
- Afetos dominantes: vergonha, raiva, medo, indiferença.
- Primeiros indícios do modo de funcionamento psíquico: mais neurótico, obsessivo, histérico, borderline, psicótico, etc.
- Contratransferência significativa: registrar o que você sentiu e por quê.
Esses registros ajudam na elaboração clínica posterior, especialmente quando o processo avança e certas formações sintomáticas voltam com mais nitidez.
Cuidados Importantes: O que Não Fazer
- Não transforme a primeira sessão em um interrogatório.
Mesmo que precise levantar dados, prefira deixá-los surgirem organicamente. - Evite oferecer interpretações precoces.
Mesmo que você “saiba” algo, o paciente ainda não sabe — e isso precisa ser construído com ele. - Não se apresse para “fechar o diagnóstico”.
A estrutura clínica leva tempo para se revelar. Evite rótulos ou definições apressadas. - Não subestime as resistências sutis.
Riso fora de lugar, desvio de assunto, elogios excessivos, omissões — tudo isso pode já ser material clínico.
Concluindo: A Clínica Começa no Encontro
A primeira entrevista não é um pré-processo. Ela é a clínica. É o momento onde o inconsciente começa a testar o campo possível entre analista e analisando. Um espaço de criação, de risco e de aposta.
Se o analista estiver excessivamente preocupado em “fazer certo”, corre o risco de não estar presente. E sem presença real — afetiva, simbólica e corporal — o processo psicanalítico não se instala.
A dica principal? Escute com todos os sentidos, registre com generosidade e sustente o vazio que ainda não se preencheu.
Porque é desse vazio que a análise começa a nascer.
Referências
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BION, W. – Atenção e Interpretação
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FERENCZI, S. – Diários Clínicos
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KLEIN, M. – O Desenvolvimento Emocional Primário
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DAMASIO, A. – Em Busca de Espinosa
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GREEN, A. – O Discurso Vivo
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WINNICOTT, D. W. – A Clínica e a Metapsicologia
Leituras Recomendadas
• FREUD, Sigmund – Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise
Um texto clássico em que Freud orienta sobre a conduta do analista, especialmente no início do tratamento. Introduz a ideia de “atenção flutuante” e alerta contra interpretações apressadas, reforçando a importância da neutralidade e da escuta cuidadosa nas primeiras entrevistas.
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• LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand – Vocabulário da Psicanálise
Obra indispensável para a formação clínica, traz definições aprofundadas dos principais conceitos da psicanálise. Auxilia o analista a nomear com precisão as manifestações clínicas que podem emergir já nos primeiros encontros.
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• NASIO, Juan-David – O Prazer de Ler Freud
Nasio oferece uma leitura comentada, acessível e profunda de conceitos freudianos fundamentais, muitos dos quais se revelam nas primeiras sessões. O livro ajuda a pensar a escuta do sintoma com sensibilidade e profundidade clínica.
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• RESNIK, Salomon – Entre o Silêncio e a Palavra
Explora a construção do vínculo analítico nos primeiros momentos da análise. Resnik aborda o silêncio como linguagem e oferece reflexões clínicas sobre o que se manifesta de forma não verbal na escuta inicial do paciente.
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• BERES, David – O Início do Tratamento Psicanalítico
Focado nas etapas iniciais do processo analítico, analisa o momento da entrevista diagnóstica, a formação do vínculo e o manejo das primeiras manifestações transferenciais. É uma obra prática e teórica sobre como dar início à escuta psicanalítica.
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• FREEDMAN, Nino – Entrevista Psicanalítica
Aborda com clareza e profundidade o que observar, perguntar e escutar durante a entrevista inicial. O autor discute o lugar do analista, o ritmo da fala do paciente e as primeiras pistas clínicas que orientam o processo de escuta e elaboração.



